Os fatos são o de menos neste imbroglio todo, pois é no nível dos sonhos que a verdadeira narrativa se articula. Tendo em vista superá-las, registrarei brevemente duas considerações fatuais antagônicas, para depois passar ao antagonismo imaginário, que realmente importa.
Pour. O campus é imenso, mal iluminado, cheio de esconderijos naturais e rotas de fuga seguras. Prato cheio para bandidos. A Guarda Universitária não tem poder dissuasório, pois não anda armada. Não tem nenhuma capacidade de ação imediata. Pode, no máximo, chamar a polícia (coisa que, convenhamos, eu ou você também poderíamos fazer). Ninguém duvida da necessidade de se iluminar melhor o campus. Duvida-se da suficiência dessa medida. Mesmo que o campus fosse tão bem iluminado quanto um estádio de futebol, continuaria imenso, cheio de esconderijos naturais e rotas seguras de fuga - um prato cheio para bandidos.
Contre. A PM é truculenta e mal treinada. Ao invés de resolver o problema de segurança no campus, ela cria um problema novo, conforme vimos no episódio que desencadeou esta revolta. Que critérios serão utilizados para decidir quem será submetido à humilhação de uma revista? Buscarão, entre os alunos, feições esteriotipadamente associadas àquelas que eles enfrentam em combates de rua? Quem nos garante que o policiamento ostensivo não será simplesmente a ocasião para pequenas (e grandes) vinganças?
Não é que eu não tenha lado neste debate fatual. Tenho. Acredito poder demolir cada uma das considerações contrárias à presença da PM no campus lembrando que todas elas serviriam igualmente bem para combater a presença da PM em qualquer outro lugar da cidade. Se a PM tem falhas (e tem), elas certamente não serão resolvidas mediante sua exclusão do campus da USP. Ou meu oponente aceita ir até o fim, e luta pela imediata extinção de todas forças de segurança, ou fica a me dever um argumento provando que o campus é um lugar "especial" em algum sentido, por algum motivo.
Acontece, porém, que existe uma outra PM, cuja finalidade não é propriamente combater criminosos, mas sim forjar identidades. A necessidade é visível a olho nu, boiando na superfície dos fatos.
O cartaz à frente da passeata na av. Paulista, por exemplo, mencionava 73 "presos políticos". Um deles, escarrapachado num banco do ônibus que conduzia os "heróis da resistência" à delegacia, posou para a foto fazendo o vê da vitória. Macaqueava o gesto de um preso da ditadura militar no momento do embarque para o exílio. Houve relatos de tortura. Uma aluna teria sido molestada sexualmente por vários soldados. Um aluno exibia um dedo machucado. Acho que vi um hematoma nas costas de alguém - posso estar enganado.
Sem a PM, essa encenação identitária não estaria completa. É necessário, por isso, desconfiar de palavras de ordem como "Fora, PM!". Bem ouvidas, elas podem significar exatamente o contrário do que estão dizendo. "Venha, PM! Precisamos de vocês! Precisamos desse confronto! Precisamos dessa identidade!" Era fácil ouvir esse chamamento durante toda a passeata pela avenida Paulista. Era fácil perceber a frustração geral diante da passividade absurda daqueles policiais. "Bando de bundões..."
É fácil rir dessa busca de identidade num passado que eles não viveram, mas tentam trazer de volta ao tempo por meio de rituais incompreensíveis para o cidadão comum. (Minha avó, que não bebia, pondo o vinho na mesa para atrair o espírito do falecido esposo.) Mais difícil e mais necessário, porém, é compreender a inquietação que está por trás dessas manifestações canhestras - uma inquietação que tem, a meu ver, uma dimensão perfeitamente legítima, que está latente em cada um de nós.
Vejam o que acontece na Grécia, por exemplo. Haverá eleições formalmente livres e democráticas daqui a algumas semanas. Os dois principais partidos, no entanto, comprometeram-se previamente com a manutenção do plano de "recuperação" do país elaborado pelas principais potências da Europa. Ou seja, o principal tema da vida nacional já está decidido , independentemente do que disserem as urnas. O eleitor será chamado única e exclusivamente para escolher quem irá implementar o arrocho - quem será, enfim, o Judas de plantão no próximo Sábado de Aleluia. Vejam o que acontece em Portugal. Vejam o que acontece na Espanha. Vejam o que acontecerá na Itália, assim que os italianos perceberem que os contrastes entre o atual primeiro-ministro e Berlusconi esgotam-se no nível das boas maneiras. Vejam o que acontece nos EUA, que elegeram a mudança para conviver com a mesmidade. A democracia representativa se esgotou, colonizada pelo capital financeiro, e passa por uma gigantesca crise de legitimidade. As pessoas saem às ruas para enfrentar a polícia porque sentem que estão sozinhas. E estão, mesmo. No que depender de seus representantes, elas podem ir à breca. Não são os eleitores, afinal, que financiam campanhas eleitorais e distribuem propinas. São os bancos e as grandes empresas.
Para quem assiste a tudo isso do Brasil, a sensação é um pouco enlouquecedora, porque o país vai bem demais, obrigado. Ninguém está tendo sua aposentadoria cortada, o nível de emprego e de salário, se não é bom, está muito melhor do que já foi e parece melhorar a cada dia. Para "piorar" as coisas, a esquerda está no poder, e não há perspectiva de que saia de lá se não for tangida por uma crise. Vai-se reclamar de quê? Junto com quem?
É nesse contexto que surge o movimento estudantil da USP, como se fosse um ator em busca de um personagem. Na ausência de inimigos compartilhados com o resto da sociedade, fecharam-se no interior dos muros e problemas da Universidade, como se não existisse vida do outro lado do rio Pinheiros. Elegeram um inimigo imaginário (a PM, minha Virgem Santa... A PM!!!), exumaram mitos, rituais e costumes de 40 anos atrás e passaram a protagonizar espetáculos patéticos como aquela marcha pela Avenida Paulista, no horário de pico, pedindo a libertação de "presos políticos". A faxineira chegou espumando de raiva no dia seguinte. Quase uma hora em pé num ônibus parado, depois de ter, imagine o senhor, trabalhado que nem burro de carga o dia todo. "Seus alunos não têm mais o que fazer, não?"
Para variar um pouquinho, estamos mimetizando a forma daquilo que nos chega de fora, sem nos importarmos com a inserção que isso tem em nosso contexto. É a nossa velha incapacidade de olharmos para o espelho, ao invés de ficarmos babando em cima de um cartão postal.
Ou essa moçada desce do sonho e troca essa revolta em miúdos, ou é melhor mesmo que acendam um baseado e fiquem curtindo sua viagem em paz.