sábado, 26 de novembro de 2011

Saudade: torrente de paixão

     É paradoxal que um professor diga isso, eu sei, mas debates presenciais têm a capacidade de me deixar catatônico. Não fosse pela taquicardia, pelo suor frio e pelo mais completo e absoluto terror, a sensação poderia muito bem ser a do Nirvana. Meu pensamento fica flutuando num vazio sem limites. Abandonada na superfície de uma semântica liquefeita, a sintaxe logo vai a pique, e a memória vira um depósito de ferro-velho, onde tento em vão encontrar aquele pedacinho de raciocínio que fiquei repetindo para mim mesmo desde o começo do debate. Um inferno.

     Por outro lado, adoro assistir a debates. Acho que tenho em relação a eles o mesmo sentimento um pouco mesquinho daquele fracote que não perde uma só luta da UFC. Sempre tive uma admiração irrestrita por quem sabe pelejar assim - olho no olho - em busca da aprovação da arquibancada. Não me refiro nem mesmo à maestria dos que acrescentaram uma técnica apurada aos dons que já carregavam consigo. Eu me contentaria com bem menos. Quem me dera, por exemplo, ser capaz de levantar uma questão de ordem numa assembléia de professores! Ou, ainda menos - uma insignificante questão de esclarecimento. "Gostaria de saber, senhor presidente, se já estamos em regime de votação." Ah, que delícia! Falar isso com perfeita naturalidade, sem ficar prestando atenção ao som da própria voz, e sem ler nas expressões circundantes gargalhadas prester a explodir na minha cara - falar, simplesmente, como quem pede um refrigerante ao garçom. 

     Mas, não reclamo. Aqui, atrás do meu teclado, consigo me virar mais ou menos bem. Às vezes, acerto a mão. Às vezes, erro. Mas, pelo menos, consigo entrar no jogo. Dizer o que penso. Controlar o que sinto. Dar às minhas palavras a entonação que eu desejo que elas tenham. Estruturar meu pensamento numa direção determinada. Consigo, enfim, contribuir para um debate a que, de outro modo, eu estaria condenado a simplesmente assistir. 

     Nada contra, eu repito, discussões presenciais. Nada contra discussões em geral - em bares, salas de aula, auditórios lotados, cozinhas, quartos, varandas, pelo telefone, pelo twitter, por e-mail, como quer que seja. Quanto mais discussões, melhor. Darei palpite numas, assistirei a outras, como todo mundo. Que todas as discussões sejam feitas, pois a Universidade de São Paulo precisa de discussão. Ninguém aguenta mais esse silêncio estridente dos corredores. Longe de mim, portanto, ser contra discussões de qualquer tipo, em qualquer medida. Meu ponto é completamente outro. 

     Sou contra a picaretagem do voto em assembléia. É preciso acabar de vez com essa farsa, para a qual não existe mais nenhuma justificativa. Votações podem perfeitamente ser feitas ao longo de todo um final de semana em urnas eletrônicas, após uma deliberação cuidadosa dos pontos a serem decididos. Os argumentos contrários são ridiculamente frágeis, e escondem, na verdade, uma só coisa: a vontade que determinados grupos têm de colonizar os movimentos sociais. Por que a esquerda não pode inovar nesse ponto? Por que não apostar de fato na coletividade, ao invés de desconfiar dela? Por que entregar essa bandeira de graça ao outro lado? Por que não entusiasmar a Universidade com um discurso novo, ao invés de ficar grudada à simbologia caduca da década de 60? Por que não imitar a década de 60 naquilo que ela teve de melhor, que foi justamente a capacidade de não imitar ninguém?

    Inúmeras pessoas dentro da Universidade não reconhecem mais nenhuma legitimidade em decisões coletivas tomadas em assembléias. Esse é o nó da questão, que precisa ser enfrentado. Enquanto isso não acontecer, os piquetes - em si mesmos odiosos - estarão simplesmente ocupando com uma nota de violência o lugar dessa impressionante falta de originalidade que parece ter infestado toda uma geração.

8 comentários:

  1. Lindo texto. Eu só diria que, na fflch, o que menos tem é o "silêncio estridente dos corredores." Nos últimos dias até comentei com amigos, brincando, que precisaria levar um mp3 player para a fflch porque já não aguentava mais ouvir discussões exaltadas nos corredores sobre polícia, Rodas, maconha, etc.
    Seu texto é inteiramente pertinente justamente porque os "defensores das assembléias" pensam que ela é o único espaço possível de discussão. O pior de tudo é o pressuposto de que, se essa discussão não for forçada por uma assembleia, ela não vai existir. Tenho vontade de dizer aos meus colegas: essa discussão existe o tempo todo, sob outras formas que vocês não são capazes de reconhecer.
    Além do mais, qualquer um que já tenha frequentado assembléias sabe que a discussão quase inexiste. O que há são vomitos de opinião, normalmente exaltados e sem qualquer concatenação lógica.

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  2. Raquel,

    Quantos professores do departamento já entraram aqui, no blog de um colega, para fazer um comentário, contrário ou favorável? Não existe DEBATE. Cada um fala para a sua tribo, e pronto.
    Entre os alunos, você tem razão - existe debate, sim. O problema é que vocês convivem com tentativas incessantes de INSTRUMENTALIZAR o debate, e isso vicia todo o processo.

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  3. Grande João; apenas uma informação; na UFBA diversas decisões do sindicato são feitas por votação em urna dos filiados (e não por assembléia). Especialmente, é claro, decisões sobre greve.

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  4. Caro João,
    o problema é bom, mas a solução ainda é ruim.
    A votação que não é presencial não torna ainda mais real a opinião pré-formada, já que não garante a necessidade de ouvir o outro, o argumento que (espera-se) o outro tem a oferecer? Se por vezes é difícil ouvir o outro pessoalmente, certamente não será difícil quando basta virar os olhos... e votar sem ouvir o outro, dogmaticamente certo de sua posição (o que acontece com os mais variados pontos de vista).
    Sei que o que digo pode ser um ideal que encontra efetivamente obstáculos nas assembléias de hoje, mas ainda não vejo uma saída melhor - infelizmente não sou tão criativa quanto uma ou outra geração passada... - que a presença massiva de pessoas dispostas a disputar com alguns grupos infelizes e desinstrumentalizar o espaço que, afinal, não é de ninguém a priori.
    Abraço. Monica Stival

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  5. Grande professor Luiz Eva! Obrigado pela visita. O debate sobre o processo de votação me parece central, de um ponto de vista prático, mas há toda uma mitologia que tentarei desencavar nos próximos posts e que está ligada a indagações mais profundas. (O post "A Esfinge" é uma espécie de prefácio a essas indagações.)

    Bom saber que tive a honra de sua leitura.

    Grande abraço.

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  6. Cara Monica Stival,

    Repare no parágrafo que começa com a frase "Nada contra, eu repito, discussões presenciais". Seu argumento teria algum peso caso eu estivesse propondo que as DISCUSSÕES fossem feitas exclusivamente pela Internet. Estou propondo que as VOTAÇÕES sejam feitas assim. (Ou por meio de urnas disponíveis ao longo de um bom período de tempo, para que todos participem da votação. É o método usado na UFBA, conforme nos lembrou o professor Luiz Eva.)
    Abraço, e muito obrigado pelo retorno.

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  7. Oi Monica,

    Voce diz que a votação em assembléias presenciais ainda é preferível, porque de algum modo evitaria o voto "dogmático". Ainda que isso fosse verdade, acho que as vantagens de um sistema de votação independente de assembleias superam seus problemas.

    A opinião pré-formada sempre vai existir, em qualquer um dos casos. Seja essa opinião pré-formada ou não, você não acha que todo aluno deveria poder participar da deliberação de algo que o comprometa (greve, por exemplo)? Por que devemos forçar um suposto espaço de debate do qual muitos não querem ou não podem participar, às vezes por motivos bastante razoáveis? O que há de errado em permitir que todos os membros da comunidade acadêmica participem das tomadas de decisões relacionadas à sua categoria, sejam eles alienados ou não?

    É preciso lembrar de alguns outros problemas práticos das assembleias presenciais, além daqueles para os quais o João já chamou atenção:
    - a imprecisão na contagem de votos (ou mãos)
    - pessoas de fora da universidade, em geral trazidas pelos partidos, participando de votação.
    - manipulação, por exemplo, através do adiamento do momento da votação até que grande parte dos interessados já tenha ido embora.
    - intimidação, etc. etc.

    Não acho que o sistema de votação em urna, ou online, seria inteiramente isento de problemas. Mas, no meu ponto de vista, dificilmente seria pior do que o sistema atual.

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  8. Márcio Becker Góis29 de dezembro de 2011 22:58

    Bravo, professor. Tenho que dizer que me sinto bastante motivado ao ser seus textos a continuar minha batalha pessoal contra esse ambiente sufocante que se transformou a política dentro da universidade.

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